Entrevistas

Politização da Justiça e judicialização da política

“Vivemos a politização da Justiça e a judicialização da política”, diz Aldo Rebelo

Diário Catarinense – Raquel Vieira
18 de junho de 2018

Diferentemente dos demais pré-candidatos à Presidência da República, Aldo Rebelo tem uma agenda própria. Diz que segue ela desde o início da sua carreira política e que saiu do PCdoB, depois de 40 anos de militância, porque a esquerda mudou. Filiou-se ao PSB de Eduardo Campos, mas não concordou com o nome do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa.

Sete meses depois,  migrou para o Solidariedade. Na quarta-feira, conversou com a reportagem em Florianópolis, durante a passagem pelo Congresso dos Prefeitos. Aos 62 anos, o alagoano contou que acredita no nacionalismo, defendido por ele Brasil a fora nos últimos meses. Garante que prioriza o fortalecimento do país, o equilíbrio social e a democracia. Critica o que chama de judicialização da política e a politização da Justiça quando fala da prisão de Lula.

Confira a entrevista:

Por que depois de 40 anos filiado, trocou o PCdoB pelo PSB?

Quando entrei no PCdoB, já tinha as minhas convicções. Era nacionalista e achava que o nacionalismo era uma coisa importante para o país, tendo em vista que todos os países do mundo defendem seus interesses próprios. Ser de esquerda era ser nacionalista, valorizar a questão social, a questão nacional e valorizar a luta pela democracia. Com os anos, a esquerda foi perdendo o vínculo com a questão nacional. Foi abraçando outras causas, que hoje são chamadas de politicamente corretas. A identidade ideológica foi sendo substituída pela identidade biológica. Mais importante do que você pensa é o que você é. Se você é preto, é branco, é homem, é mulher, ou seja, a biologia passou a ser determinante. Penso que, embora isso seja importante, não é mais importante do que a questão nacional. E isso foi me levando a um certo distanciamento dessa agenda, que eu chamo de multiculturalista, agenda identitária. As identidades que separam passam a ser mais importantes do que as que unem, ou seja, a igualdade passa a ser secundária em relação às diferenças. Fui convidado para ser candidato a presidente pelo PCdoB, mas achei que no debate da agenda nós íamos ter muitas divergências. Não aceitei o convite e me afastei. Acabei me filiando ao PSB porque tinha uma história de identidade, fui amigo de Miguel Arraes e Eduardo Campos. Mas, em um certo momento, o partido inclinou-se pela candidatura de Joaquim Barbosa (ex-ministro do Supremo Tribunal Federal). Respeitei, mas não estava disposto a colaborar.

O nome de Joaquim Barbosa não lhe agradava?

Eu entendo que a luta contra a corrupção é importante porque ajuda a democracia, mas as corporações que têm atribuições de fazer esse combate à corrupção não podem substituir a política. Não podem ter a pretensão de substituir a política. Nenhuma corporação pode substituir a política. A corporação mais competente que eu conheço, mais patriota, a que tem mais espírito público, que são as Forças Armadas, não deu conta de governar o país. Então, vamos dar essa atribuição para outra corporação? Achei que essa não era a minha agenda. Me afastei e recebi o convite do Solidariedade para ser candidato à presidência em torno dessas ideias. Já tinha recebido a adesão dos dirigentes do Solidariedade e da Força Sindical a um manifesto lançado em defesa da união nacional, pelo desenvolvimento, pela redução da desigualdade e pela democracia. Aceitei e aqui estou.

Sua passagem de sete meses pelo PSB foi um erro?

Não. Foi uma contingência. Eu tinha essa identidade, embora também já tivesse o convite do Solidariedade. Mas pelos laços pessoais eu achei que dava para fazer uma trajetória no PSB. Na verdade, houve essa escolha que não se concretizou porque o Joaquim Barbosa acabou não aceitando (concorrer) e fiz a opção pelo Solidariedade. Tinha uma identidade forte em torno da agenda, da economia, do crescimento, da luta pela democracia e direitos sociais.

O senhor teve uma atuação no início da sua carreira contra a ditadura militar. Como enxerga hoje a defesa pela intervenção?

Ainda bem que quem faz isso não são os militares. São civis ou desesperados por conta da situação difícil do país ou interessados em ter uma ditadura só para eles. Os militares não estão interessados nisso. Convivi com militares durante o período que fui ministro da Defesa e tenho convicção de que eles não estão interessados em ter protagonismo político. Estão interessados em cumprir a missão que eles têm, que já é muito difícil: ajudar o país e ajudar a construir o Brasil. Militares não são apenas os guardiões da nossa fronteira, do nosso espaço aéreo, do nosso mar territorial. Os militares são responsáveis por obras sociais importantes como ajudar os atingidos pela seca no Nordeste. Eles estão socorrendo os índios na Amazônia, onde o Estado brasileiro é praticamente ausente. Os militares atendem essas comunidades mais desassistidas. Ajudam a fazer as obras de transposição das águas do São Francisco, fizeram o programa nuclear, o programa espacial, o sistema de proteção de fronteira e os primeiros computadores do Brasil. Esse pessoal tem um papel importante e não quer ser protagonista da política. Alguns civis querem que eles voltem, mas esse não é o desejo dos militares.

Que lições a prisão de Lula deixou para o país?

Temos uma situação difícil porque você tem o líder das pesquisas eleitorais preso. O segundo colocado, deputado Jair Bolsonaro, tem um processo pesado para responder. Você tem uma judicialização da eleição no Brasil. A judicialização da política nós tivemos desde o começo da República. Floriano Peixoto chegou a nomear um engenheiro para o Supremo Tribunal Federal porque o Supremo dava habeas corpus a todos os inimigos da República. Nós vivemos a politização da Justiça e a judicialização da política e não é uma coisa boa para o país. Eu acho que dificilmente o ex-presidente vai poder concorrer. O PT está tentando a liberação. Mas acho que o mundo político já leu que isso não vai acontecer. Daí a pulverização que estamos vendo: todo mundo é candidato. Até o Temer (presidente, Michel), era candidato até poucos dias atrás.

A sua candidatura é para valer?

Agora que está começando a minha candidatura. Fui o último a lançar minha pré-candidatura. Ainda tenho um caminho a percorrer e vejo que meu nome, em um ambiente político polarizado, tem condições de unir amplas forças políticas sociais pela experiência que é grande. Tenho diálogo com os trabalhadores, empresários, comunidades científicas e com todo mundo. Tenho autoridade para buscar e encontrar um caminho para o Brasil. Vamos ter uma renovação muito pequena no Congresso, talvez a menor dos últimos anos, não sei se vai passar de 20%. O presidente eleito vai se deparar com esse desafio. Governar o Brasil com uma crise fiscal, previdenciária, de segurança, de energia e com moeda fragilizada. Esse presidente precisará ter muita força, autoridade, legitimidade para enfrentar os problemas, e ainda ter capacidade de diálogo. Se for um governo fraco, o país torna-se ingovernável.

O senhor diz que o seu nome pode aglutinar setores, mas pode aglutinar outros candidatos também?

Minha candidatura não tem muita semelhança com as demais. Tenho uma marca que é a questão nacional. O país tem que estar em primeiro lugar. Converso com todos os candidatos ou pré-candidatos que me procuram. Converso com o Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados, DEM) há muito tempo. Recebi um convite para ser candidato a vice dele, fiz a contraproposta de ele ser o meu candidato a vice. Sou mais experiente. Mas a conversa parou por aí. Cada um foi cuidar da sua pré-candidatura. Eu converso com Alckmin (Geraldo, PSDB), com quem precisar. Eu não me nego a dialogar com ninguém. Mas em primeiro plano está fortalecer e consolidar a minha pré-candidatura.

Em 2014, o Solidariedade apoiou o  Aécio Neves. É possível repetir esse apoio ao PSDB?

Acho muito difícil. Até agora não tem candidatura consolidada do PSDB.

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