Entrevistas

Abandonaram a defesa do Brasil para falar de biologia

Abandonaram a defesa do Brasil para falar biologia – Aldo Rebelo, sobre a nova esquerda

Gazeta do Povo
Madeleine Lacsko
1 de julho de 2018

Aldo Rebelo entrou para o PC do B na década de 70, fazendo parte de uma esquerda que lutava pelo estabelecimento da democracia no Brasil. Trata-se de um personagem que claramente não tem lugar entre os intelectuais de apartamento e metafísicos de galinheiro que assumiram a neo-esquerda.

“As bandeiras da esquerda eram o nacionalismo, a defesa do Brasil, a defesa da democracia, da Constituinte, da anistia, da liberdade de imprensa, da liberdade artística e a defesa dos direitos sociais, o Brasil ser um país mais justo. A partir de um determinado momento, depois da redemocratização, a esquerda começou a mudar muito, a abandonar as bandeiras antigas pelas bandeiras modernas, a substituir a ideologia pela biologia na definição das suas políticas.”

“O que orientava a esquerda era a ideia, aí, substituiu isso pela identidade biológica: a raça, o sexo, a cor da pele, isso passou a ser mais importante, ou seja, a política de gênero – que eu acho importante – passou a ser prioritária com relação à questão nacional e isso me levou a um afastamento paulatino. Isso não foi do dia para a noite.”

“Eu acho que o nacionalismo não é uma coisa superada, não é uma coisa antiquada, não é uma coisa do passado. Eu acho que a questão nacional, hoje, é o que orienta a política de todos os países que são importantes no mundo. O interesse nacional orienta as decisões dos Estados Unidos, da China, da Rússia, da França, da Alemanha e aqui a esquerda abriu mão em certa parte dessas bandeiras para assumir essas bandeiras chamadas identitárias, as bandeiras multiculturalistas, as bandeiras com base na identidade da biologia e não da ideologia. Em função disso, eu, que tinha sido convidado para ser pré-candidato (a presidente) pelo PC do B, não aceitei o convite, me afastei.”

Aldo Rebelo relata que chegou a buscar o PSB porque tem longo relacionamento com a família Arraes, mas chegou ao partido em um momento no qual o nome de Joaquim Barbosa como candidato à presidência era consenso interno e ele discordava da entrega dos destinos do Brasil nas mãos do Judiciário ou da mentalidade da cúpula do Judiciário brasileiro. Procurou então o Solidariedade porque Paulinho é sindicalista, seria a legenda mais próxima das bandeiras que defende e o partido manteve o compromisso de apoiar suas bandeiras de campanha.

Nacionalista clássico, o pré-candidato tem como primeira meta a defesa do Brasil, que era consenso na esquerda dos anos 70 e passou a ser deixada de lado após a abertura democrática. Para Aldo Rebelo, há dois motivos centrais: a defesa dos interesses brasileiros realmente cria problemas com outros países e existem inúmeros incentivos para abandonar essa luta em prol de outras.

“A questão nacional gera atritos, ela cria de fato conflitos entre o interesse nacional brasileiro e o interesse nacional lá de fora. Os Estados Unidos financiam essas Organizações Não-Governamentais que cuidam dessas políticas identitárias exatamente para subtrair energia, para subtrair força, para subtrair inteligência da luta nacionalista e encaminhá-la para essas lutas identitárias, que são financiadas pela fundação do Soros, pela fundação Ford, por essas fundações norte-americanas, que dizem: ‘se você deixar de ser nacionalista e passar a ser o defensor dessas outras bandeiras, nós te financiamos. E as universidades estão cheias de pessoas que fazem essas pesquisas, muitas ONGs que tratam disso.”

“O ambientalismo também é financiado com essa finalidade, de acusar o Brasil de ser o inimigo do meio ambiente, o inimigo das florestas. O país que tem mais floresta no mundo, o país que tem mais água doce no mundo, o país que tem mais rios no mundo, preservados, como na Amazônia, é o país que é acusado no mundo de ser contra o meio-ambiente.”

“De fato, é preciso haver uma luta pela valorização da mulher, pela promoção dos direitos da mulher, é preciso haver uma luta contra o racismo, é preciso haver uma luta pela valorização da herança africana na cultura brasileira, é preciso haver uma luta em defesa do meio ambiente mas, às vezes, essas lutas são usadas para tirar as energias da luta principal. Ou seja, o Brasil precisa voltar a crescer, precisa voltar a ser um país forte. Isso interessa aos homens, isso interessa às mulheres, isso interessa aos brancos, isso interessa aos negros, aos mestiços, aos mulatos, que compõem a maioria da população brasileira – que não é negra nem é branca, é mestiça – ou seja, isso interessa a todo mundo.”

“Isso se transforma como se fosse a luta principal. Qual é a disputa que existe no Brasil? Não é entre o crescimento da economia e o não crescimento. É como se fosse uma disputa entre pretos e brancos, entre homens e mulheres e isso eu acho que é um desserviço ao país. Você pode valorizar essas lutas sem desvalorizar e sem abandonar a questão nacional.”

Aldo Rebelo já foi ridicularizado pela esquerda diversas vezes pela defesa veemente dos militares brasileiros e pela valorização dos símbolos pátrios, dos heróis e dos valores nacionais. O pré-candidato mostra-se incomodado com a confusão que é feita entre governos passados e o nosso país.

“Eles confundem duas coisas inconfundíveis: o Brasil com os governos autoritários que o Brasil teve. Ou seja, como os militares valorizavam esses símbolos nacionais. Eu era estudante, criança, na época do regime militar. Eu cantava o hino, aprendi todos os hinos, formava fila antes de entrar na escola, cantava o Hino Nacional. Os meninos punham a mãozinha sobre o ombro do outro, entravam em fila dentro da sala de aula. Quando a professora entrava em sala de aula, você levantava, para receber a professora em sinal de respeito. Havia na escola disciplina, o menino se comportava na escola, não fazia o que queria, a professora tinha uma espécie de autoridade, era uma hierarquia que não era autoritária, era a autoridade do conhecimento, do saber. Isso tudo foi confundido como se fosse coisa da ditadura e não é.”

“O Brasil precisa disso, precisa de disciplina, de hierarquia, de cantar o hino, de respeitar os nossos heróis, os que lutaram pela independência do Brasil, os construtores da nossa pátria. E eu aprendi isso antes de entrar num partido de esquerda, aliás, eu entrei num partido de esquerda achando que era isso o que eu deveria fazer: respeitar a história do meu país, a memória do meu país, a cultura do meu país. Claro, com a consciência de que o nosso país tem defeitos, tem deformidades, tem problemas a corrigir. Mas, mesmo assim, os nossos amigos também têm, os nossos pais também têm, os nossos filhos também têm e nós amamos os nossos amigos, nós amamos os nossos familiares. Por que não vamos amar o nosso país mesmo com os defeitos que ele tem e lutar para corrigi-los?”

“A história do Brasil hoje é ensinada nas escolas a partir do que deu errado. Ou seja, parece que o Brasil é um fracasso civilizatório, parece que o Brasil é um caso de morbidez e, lamentavelmente, quem mais cultiva isso são os setores mais bem formados, bem criados, de classe média, de direita e também de esquerda que cultivam isso, tá certo? É lamentável que isso aconteça.”

A candidata que assumiu o lugar oferecido pelo PC do B a Aldo Rebelo na disputa eleitoral, Manoela D’Ávila, ocupou boa parte do noticiário da semana reclamando que foi interrompida demais durante a entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, e relacionando o ocorrido a machismo, já que ela teve 40 interrupções e Ciro Gomes apenas oito. Diversos internautas se mobilizaram na contagem e acabaram verificando que Marina Silva foi a menos interrompida, três vezes, e João Amoedo foi interrompido 30 vezes, sendo que os entrevistadores dele falaram mais que os da candidata do PC do B.

Talvez o problema seja menos de interrupção e mais de informação. Será que dessas entrevistas realmente resultam informações importantes para o brasileiro? Quais são os planos reais de cada candidato caso assuma a presidência? O que pretende fazer e como? Na maior parte das vezes, os embates com entrevistadores são no campo das ideias, não de propostas concretas e sua viabilidade. Aldo Rebelo tem uma ideia, que vem dos Estados Unidos e já é utilizada em outros países também:

“Nos Estados Unidos, eles têm um modelo interessante de debate porque eles têm temas obrigatórios. Como se trata de uma potência multinacional, eles têm que discutir a política externa. Um país que está presente e interfere em todo lugar do mundo. Então tem que discutir política externa. Tem que discutir política de defesa porque eles fazem guerra em tudo quanto é lugar. Discutem também, eu lembro, que toda eleição está lá a questão da saúde, do seguro-saúde, que também é uma grande questão dos americanos. Aqui no Brasil, cada um discute o que quer. O candidato discute o que quer, a imprensa pergunta o que quer. Eu acho que nós deveríamos ter também uns cinco temas obrigatórios.”

Para o pré-candidato, os debates que realmente interessam à população são: Segurança Pública, retomada do crescimento, desemprego, Educação e Saúde Pública.

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